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BLOG DE ADRIANO FREITAS

 
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QUANDO O CUIDADO VIRA RISCO

2026-08-14
QUANDO O CUIDADO VIRA RISCO

Quando temos um filho, um sobrinho ou um bebê muito próximo, é comum querermos protegê-lo para evitar que adquira doenças ou se contamine com alguma coisa. Acabamos blindando a criança do ambiente e adotando vários cuidados de higiene. Isso é importante, claro, mas na medida certa. Da mesma forma, quando a criança cresce um pouco — e, em alguns casos, até mesmo quando ainda é bebê —, não queremos que ela se frustre, chore ou fique triste. Assim, ficamos evitando que ela seja contrariada ou que passe por frustrações. Tudo isso é compreensível e tem boas intenções, mas traz riscos.

Na verdade, tudo o que é em excesso acaba sendo prejudicial e gera um efeito contrário ao que imaginamos. Muita gente acha que "todo cuidado é pouco" e que devemos ter absoluta cautela com bebês e crianças. Mas não é bem assim. Cuidar é essencial, mas cuidar demais inverte o objetivo inicial e acaba prejudicando o desenvolvimento. O excesso de proteção pode, mesmo sem querer, afetar o desenvolvimento do cérebro, do sistema imunológico e até a capacidade da pessoa de lidar com frustrações.

Bebês que não têm contato com outras pessoas, de quem ninguém pode chegar perto, ou com quem o contato exige o uso de máscaras e luvas, sofrem com um exagero. Ambientes excessivamente esterilizados, com purificadores de ar e objetos totalmente higienizados, também representam um problema, assim como evitar qualquer tipo de desconforto ou tristeza. Ou seja, tudo isso inverte o propósito do cuidado, gerando justamente o oposto: uma maior vulnerabilidade. Hoje, vamos entender, à luz da neurociência e da imunologia, por que o excesso de cuidado causa isso.

Para começar, precisamos entender o seguinte conceito: o organismo humano (e o de outros mamíferos também) não nasce pronto. Ele aprende a lidar com certas situações a partir do momento em que é exposto a elas. O excesso de isolamento e de limpeza significa, automaticamente, menos estímulos para o sistema imune. Ao ter menos estímulos, o sistema não aprende a lidar com os agentes externos e perde a eficiência de reconhecer o que é danoso, o que é inofensivo e de gerar meios naturais de combate. Isso fragiliza o sistema imunológico, pois ele não consegue enfrentar situações às quais nunca foi exposto, nem mesmo em pequenos graus.

Quando há um excesso de esterilização e falta de contato com outras pessoas, o sistema imune fica muito mais propenso a desenvolver alergias, intolerâncias, asma e doenças autoimunes ou inflamatórias. Na prática, o sistema imunológico precisa "enxergar" o mundo para saber com o que vai lidar. Sem isso, ele reage de forma equivocada. É o que vemos em crianças que brincam ao ar livre, com o pé no chão, em comparação àquelas criadas em apartamentos, dentro de uma "bolha", sem poder pisar descalças ou interagir de perto. A primeira criança terá contato com micro-organismos e aprenderá a combatê-los; a segunda, não.

Existem fases fundamentais chamadas janelas críticas, que são períodos do desenvolvimento em que o treinamento do sistema imunológico e do cérebro é essencial para calibrar os mecanismos de defesa e as reações do corpo. Ocorre uma formação muito intensa desse aprendizado entre os zero e os três anos de idade. Em seguida, há uma consolidação do que foi aprendido, que vai até os sete anos. Isso inclui o contato com o ambiente, com pessoas e com alimentos variados. Não estou dizendo que você deva expor intencionalmente um bebê a doenças infecciosas e a pessoas sabidamente contaminadas; não se trata de expô-lo a um alto risco. O ponto é não isolá-lo do cotidiano normal de um ser humano, que é conviver com outras pessoas e ambientes naturais.

Muita gente não associa, mas existe um neurodesenvolvimento atrelado a tudo isso. O sistema imune e o cérebro estão conectados intimamente. Inflamações, estresse e experiências moldam tanto o cérebro quanto a imunidade, afinal, o cérebro e o sistema nervoso autônomo atuam diretamente nas defesas do corpo de forma integrada. Um ambiente totalmente controlado limita as experiências essenciais para esse desenvolvimento saudável. Destaco o sistema imune porque é onde há mais confusão: as pessoas acreditam que proteger a criança de qualquer gripe ou resfriado, mantendo-a em uma redoma, garante que ela seja mais saudável, quando, na verdade, é o inverso.

Além disso, existe a questão comportamental. O desenvolvimento não precisa focar apenas no fator biológico, mas também na capacidade de lidar com as frustrações. Áreas importantes, como o córtex pré-frontal, que determinam a autorregulação e o controle emocional, precisam ser estimuladas. Uma falta de contato com a frustração gera adultos sem tolerância emocional, que entram em "parafuso" ao serem contrariados, tornam-se pessoas impulsivas e reagem intensamente quando as coisas não saem do seu jeito.

Essa desregulação e esse aumento de ansiedade ocorrem quando, na infância e na adolescência, tentam evitar a todo custo que o jovem sinta desconforto, resolvendo tudo por ele e impedindo sua exposição social e a eventuais críticas. Parece algo bom no momento, mas gera um dano emocional muitas vezes irreparável. Ouvi um jornalista comentar, com muita propriedade, que vemos cada vez mais nas escolas pais proibindo os filhos de passar por desconfortos. Foram criadas regras onde professores não podem falar certas coisas ou chamar alunos ao quadro, sob a justificativa de que a criança pode se frustrar ou se constranger. Em vez de melhorarmos a educação, estamos indo ladeira abaixo. Comparando as crianças do ensino fundamental de hoje com as de uma geração atrás, notamos uma piora comportamental enorme e uma intolerância extrema a serem contrariadas, resultado dessa superproteção.

Muitas vezes, os pais identificam problemas nos filhos e buscam soluções e causas externas, sem perceberem que ajudaram a causar o problema durante aquele período vital de treinamento do corpo. Vejamos alguns exemplos (embora existam muitos outros):

Asma e Alergias Respiratórias: Acredita-se que crescer em ambientes extremamente higienizados protege as crianças. É o contrário. Pela falta de exposição a poeira, animais e ambientes externos — especialmente na janela dos zero aos três anos —, a criança cria uma baixa diversidade microbiana. O organismo acaba combatendo aquilo que não deveria causar impactos fortes, simplesmente porque não foi treinado para lidar com esses elementos.

Intolerâncias Alimentares (Leite e Glúten): Pode haver fator genético, sim, mas não apenas isso. O sistema imune precisa ser exposto nos primeiros meses de vida para criar proteção natural. A janela crítica para a proteína do leite ocorre entre zero e seis meses (sendo relevante até um ano); para a sensibilidade não celíaca ao glúten, situa-se principalmente entre seis meses e dois anos. Ambientes estéreis e uma introdução alimentar muito restrita ou tardia impedem o organismo de aprender a tolerar os alimentos.

Seletividade Alimentar Extrema: Ocorre devido a pouca exposição alimentar em idades precoces. O sabor que sentimos é uma composição de gostos, texturas e temperaturas. Se uma criança não é exposta a uma grande variedade de alimentos, ela não treina seu sistema e se torna incapaz de tolerar certas texturas ou sabores.

Doenças Autoimunes (ex: Diabetes tipo 1): Não é uma causa direta e exclusiva, mas pode ser engatilhada pela baixa diversidade microbiana. O corpo, sem o treinamento adequado para atacar apenas elementos danosos, acaba atacando a si mesmo.

No aspecto comportamental, a ansiedade social muitas vezes não é só timidez, mas falta de "treino social" real, ou seja, falta de contato com críticas, com frustrações e com brincadeiras normais de outras crianças (o famoso "tirar sarro"). Se a cada situação a família defende a criança com "unhas e dentes", criará um jovem incapaz de se defender ou de tolerar o convívio social.

Toco aqui em um ponto polêmico: hoje é comum vermos um hiperdiagnóstico de autismo. Não acho que o autismo não exista — é óbvio que existe. Mas o que defendo é que estão laudando pessoas que, na verdade, têm apenas uma inabilidade de lidar com frustrações e situações sociais, não uma incapacidade inata. Se você não deixa a criança se expor ao lado bom e ruim do convívio, ela não aprende a lidar com problemas. O mundo não é perfeito. Essa criança evitará estranhos, fugirá de novos relacionamentos e dependerá das interações mediadas pelos pais. A criança cresce socialmente inábil, chega à juventude sem saber conviver e acaba sendo rotulada de autista de forma equivocada. Um transtorno de fato (como o autismo) pressupõe uma incapacidade neurológica inata, ou seja, a pessoa não conseguiria desenvolver aquelas habilidades de qualquer forma. No entanto, muitas crianças que são rotuladas hoje tinham a capacidade plena, mas não desenvolveram as habilidades por falta de treino, o que considero um erro de diagnóstico grave que temos observado muito.

A partir de certa fase, a criança precisa entender que o mundo não gira em torno do umbigo dela e que não pode ter tudo o que quer. Pais que se matam para que o filho não seja contrariado estão apenas criando alguém sem nenhuma resistência emocional. Isso leva também ao desenvolvimento de padrões rígidos, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) e manias arraigadas que, lá na frente, facilitam a rotulação indevida de TDAH, TOD (Transtorno Opositivo Desafiador) ou Autismo.

É fundamental diferenciar a proteção saudável da superproteção. Não estou dizendo que qualquer caso de asma, diabetes, autismo ou intolerância seja causado, de forma direta e obrigatória, pelo excesso de cuidados. A vida não é matemática. Um conjunto de fatores genéticos, comportamentais e funcionais contribui para isso. No entanto, dentro desse conjunto, o excesso de superproteção no desenvolvimento é, sim, uma das causas reais e significativas.

Boas práticas envolvem contato social gradual. Você não vai largar a criança no mundo para ser "engolida", deixando-a sofrer abusos severos sem nenhum limite ou monitoramento. Mas proibi-la de pisar descalça, esterilizar exageradamente a casa e barrar o contato com outras pessoas saudáveis é algo extremamente prejudicial. Seu filho viverá no mundo, não em uma bolha, e não serão essas exposições triviais que causarão problemas. Usar equipamentos para esterilizar ar e desumidificadores de ambientes só deve ocorrer caso a criança tenha uma condição médica real que exija isso.

Para finalizar, a regra de ouro é: nosso sistema imune aprende com a exposição. Ele não estuda de forma teórica na escola, ele precisa do contato. Da mesma forma, o cérebro precisa de desafios. A educação passa pela "dor" da frustração — a dor de ser contrariada, a dor de errar e sofrer a consequência desse erro. A frustração faz parte do desenvolvimento. Quando tentamos proteger uma criança das pequenas frustrações diárias, estamos, na verdade, protegendo-a da própria vida.

A falta de cuidados é péssima porque expõe aos perigos. O excesso de cuidado, porém, é igualmente nocivo porque impede que o organismo físico e emocional amadureça. Talvez, o maior cuidado de todos seja, justamente, permitir que o organismo aprenda, mesmo que isso envolva algum grau de desconforto.


 

Adriano Freitas
Especialista em Neurociências

(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,

Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)

 

 

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