Eu garanto que você já deve ter pensado várias vezes em coisas do tipo: "quando eu me formar, eu vou ser feliz", "quando eu comprar a minha casa, vou ser feliz e ficar tranquilo", "quando eu conseguir aquele emprego, aí sim serei feliz", ou, ainda, "eu vou descansar, me aposentar, viajar, e então serei feliz". O engraçado é que, se pararmos para perceber, veremos que passamos boa parte da vida — eu diria que a maior parte dela — adiando a felicidade. Ela nunca é agora. É sempre "quando conseguir isso" ou "quando fizer aquilo". Nós nunca estamos felizes naquele exato momento. Temos sempre um ponto focal mais à frente. Inclusive, nos instantes em que estamos alegres e sem problemas, podemos até achar que estamos felizes, mas, ainda assim, miramos em algo maior no futuro. Estamos sempre de olho na próxima conquista, na próxima viagem, no relacionamento que queremos ter.
O curioso é que, quando chegamos lá, aquela felicidade que planejamos e almejamos às vezes não dura. Nós nos achamos felizes por um mês, uma semana, talvez dias — isso se não forem horas —, e a vida continua. De repente, nos vemos pensando em um outro objetivo para sermos felizes de fato. Ou seja, nunca estamos em um estado de felicidade constante. Estamos sempre com algo à frente que nos traria a felicidade, sempre almejando esse futuro. Será mesmo que a felicidade foi feita para durar tão pouco assim? Será que ela foi feita apenas para nos motivar a fazer as coisas? Ou será que estamos apenas procurando no lugar errado? O que vocês acham?
Na neurociência, há uma ideia muito importante. Ao entendê-la, acabamos compreendendo o porquê dessa busca constante. O nosso cérebro não evoluiu para produzir felicidade constante; ele evoluiu para aumentar as nossas chances de sobrevivência. Toda a evolução humana caminhou no sentido de manter a sobrevivência e a autopreservação, e não de nos proporcionar bem-estar, tranquilidade, ou nos fazer relaxar e curtir. O nosso cérebro sempre evoluiu preocupado. Isso teve a sua importância, porque, imagine se o cérebro dos nossos ancestrais estivesse satisfeito o tempo inteiro. Talvez o ser humano das cavernas deixasse de procurar alimento e não resistisse ao inverno. Talvez não buscasse abrigo, ou não percebesse as ameaças, sendo exterminado justamente por ser muito frágil. Provavelmente, a nossa espécie não chegaria aonde chegou e não teria a evolução que teve se ficasse despreocupada e feliz o tempo todo.
Portanto, essa vigilância acabou sendo uma necessidade da evolução humana. Não foi uma questão de escolha, mas a forma encontrada para que o ser humano sobrevivesse enquanto espécie. Isso gerou um funcionamento cerebral que atua como um verdadeiro detector de problemas. O cérebro fica o tempo todo observando o que está dando errado e o que precisa ser solucionado. Ele presta muito mais atenção ao que falta do que ao que já conquistamos. Você pode reparar: por mais que tenha conquistado muita coisa na vida e perceba que possui o que muitas pessoas não têm, o seu foco continua naquilo que falta, no que você ainda quer e almeja. A esse fenômeno damos o nome de "viés da negatividade", e isso vale para tudo.
Quando recebemos uma crítica, ela pesa e causa um impacto emocional muito maior do que um elogio. Há aquele ditado que diz que cem pessoas podem te elogiar, mas, se uma vier com uma crítica, aquilo parece acabar com o seu dia. Lemos uma notícia ruim, e ela tem um peso muito maior do que diversas notícias boas. Tudo o que é ruim e problemático tende a atrair mais o foco do nosso cérebro. Se temos um problema, ficamos remoendo aquilo, o que atrai a nossa atenção e preocupação de forma muito mais intensa do que os momentos agradáveis. Passamos horas focados no que está dando errado, sem parar para refletir e avaliar a quantidade de coisas que foram solucionadas e que deram certo.
O fato é que, durante a nossa evolução, esse mecanismo foi fundamental para a sobrevivência da espécie. O lado ruim disso é que, hoje, muitas das preocupações que precisávamos ter naquela época deixaram de ser necessárias. Nós não precisamos mais sair para caçar ou ter um medo constante e absurdo de ataques de predadores. Logicamente, hoje em dia existem assaltos e outros perigos, mas não vivemos mais em um mundo selvagem. O ambiente mudou, os estímulos mudaram, a nossa sociedade e os nossos hábitos mudaram. Porém, os nossos instintos e a estrutura do nosso cérebro continuam sendo os mesmos: sempre focados nos problemas e em suas soluções.
Falando das nossas conquistas, imagine uma pessoa que passou anos sonhando em comprar um determinado carro. Ela trabalha, luta, junta dinheiro de um lado e de outro e, finalmente, consegue comprá-lo. O que acontece? Nos primeiros dias, há aquele entusiasmo, a alegria por ter realizado o sonho e o sentimento de orgulho. Mas, passando algumas semanas, o carro vira parte da rotina e a vida segue. Por mais que a pessoa ainda olhe para o veículo e se orgulhe do que conquistou, logo ele se torna um bem usado, inserido no dia a dia. Já não causa toda aquela euforia inicial. O mesmo vale para uma promoção no trabalho. A pessoa muda de cargo ou passa em um concurso, fica orgulhosa e feliz, mas logo aquilo também vira rotina. Isso acontece com o celular novo, com a casa própria, com qualquer conquista. Nenhuma delas proporcionará um estado de alegria permanente.
Esse fenômeno também tem um nome: "adaptação hedônica". Rapidamente, o cérebro transforma aquilo que era extraordinário em algo comum. Do ponto de vista biológico, isso faz sentido. Se permanecêssemos completamente satisfeitos após cada conquista, perderíamos a motivação para continuar evoluindo, trabalhando e fazendo novas coisas. Se a euforia de comprar um carro nunca passasse, seria como ancorar o nosso barco e nunca mais correr atrás de outros objetivos. E a dopamina participa diretamente desse processo. Ela está relacionada à recompensa, mas talvez ainda mais relacionada à expectativa dessa recompensa. Muitas vezes, nos dá mais prazer planejar as coisas do que propriamente realizá-las. Quantas vezes sentimos aquele frio na barriga ao planejar uma festa de Natal ou uma viagem? Ficamos motivados vendo os detalhes e correndo atrás, mas, quando chega o dia, o evento passa rapidamente e pode não parecer tão gostoso quanto os dias de expectativa. Esse senso de novidade desaparece quando o fato ocorre, justamente por conta desse mecanismo que nos move a buscar sempre coisas novas.
Apesar de tudo isso, tenho uma boa notícia. Embora acreditemos que a felicidade venha apenas das grandes conquistas, ela pode surgir a partir de pequenas experiências cotidianas. Uma conversa agradável com alguém de quem gostamos, o cheirinho de café, ouvir uma certa música, brincar com os filhos, passear com o cachorro, sentir o vento no rosto ou observar um pôr do sol bonito. Todos esses momentos ativam os circuitos de recompensa e bem-estar. Áreas do cérebro como o núcleo accumbens — envolvido na percepção da recompensa junto com a dopamina — e o córtex orbitofrontal — que participa da avaliação subjetiva de prazer — também entram em atividade com essas pequenas coisas. Além disso, experiências positivas diárias fortalecem vínculos sociais e envolvem regiões como o córtex pré-frontal medial, promovendo a liberação de substâncias como a ocitocina, que é fundamental para o apego e para a confiança.
Você pode me dizer que não sente isso no seu dia a dia e que o seu foco está sempre lá na frente. Mas o problema não é a ausência desses momentos agradáveis; eles existem e são diários. O problema é que quase sempre estamos distraídos. Não olhamos para eles, não prestamos atenção. A vida vai passando e o nosso foco não está nessas pequenas coisas. Às vezes, estamos no ônibus, mas, em vez de sentir o vento na janela, estamos pensando na reunião que ainda nem aconteceu. Estamos sentados diante de um belo pôr do sol, mas com o pensamento na faculdade ou em outros problemas. Damos uma volta com o cachorro conversando com alguém, mas com a cabeça no boleto que precisamos pagar. Não estamos totalmente presentes naquele momento. Quando isso acontece, embora estejamos diante de situações que nos trariam uma felicidade cotidiana, o nosso cérebro não registra plenamente as experiências simples que gerariam bem-estar. Não é que os nossos mecanismos não funcionem; nós é que não temos o olhar voltado para isso, apenas seguimos o fluxo e a tendência natural de focar nas preocupações.
Mas se pararmos em certos momentos — em um final de semana de folga, deitando em uma rede em casa — e refletirmos sobre o que tínhamos há um tempo atrás e o que temos hoje, as conquistas e os estudos que já realizamos, a percepção muda. Ao começar a observar essas pequenas coisas e tirar o foco do boleto ou da reunião, você notará uma paz e um bem-estar que não sentia até então. É esse o grande trabalho que devemos fazer. Ter grandes objetivos e buscar realizações maiores é saudável, nos motiva e faz bem, mas não podemos deixar os nossos dias passarem cinzentos, enxergando apenas problemas para resolver. Precisamos valorizar os detalhes. Nossa experiência de vida depende muito mais de para onde direcionamos a nossa atenção do que da própria realidade em si. A atenção funciona como um refletor: pode iluminar apenas as preocupações ou iluminar um momento agradável que tivemos. Tudo depende de para onde você vira esse refletor.
Aqui entra o conceito da neuroplasticidade: o cérebro se modifica. Ele reforça conexões muito usadas e enfraquece as pouco usadas. O que isso significa? Se, diariamente, me preocupo apenas com as dificuldades e nunca paro para exercitar a observação das coisas boas e o otimismo, as conexões reforçadas com o tempo serão as das preocupações e dos medos. Torna-se uma bola de neve: quanto mais vivemos esses "dias cinzentos", mais passamos a ter uma visão negativa do mundo e menos somos capazes de enxergar o que nos faria felizes. E, apesar de esse viés negativo ser um processo natural e evolutivo, felizmente possuímos o córtex pré-frontal, que atende às nossas vontades.
Com um pouco de esforço e de observação, conseguimos direcionar o nosso foco, nem que seja momentaneamente. O córtex pré-frontal reage e toma atitudes com base nas nossas vontades. Então, podemos decidir: "Aquele boleto está ocupando a minha cabeça, mas vou deixá-lo para segunda-feira. Deixe-me viver o hoje, viver este domingo e apreciar o que está ao meu redor". Ao fazer o esforço de viver o presente, você exercita essas conexões positivas e molda a forma como o seu cérebro trabalha. O objetivo não é tentar eliminar os problemas, pois eles sempre existirão e o cérebro continuará beliscando a nossa atenção para eles. A meta é exercitar a nossa presença no momento atual. Confesso que eu mesmo não tinha esse hábito, mas, hoje, quando chega o fim de semana, percebo o quanto trabalho arduamente e paro para pensar no que conquistei ao longo dos últimos dez anos. Ter esses momentos traz uma satisfação imensa e impede que a vida se torne pesada e difícil de carregar.
Tendo dito isso, quero falar um pouco sobre a gratidão. Algumas pessoas imaginam que ser grato significa ignorar as dificuldades. Não é isso. Gratidão é reconhecer que os problemas existem, mas perceber que eles não são a única coisa na vida. Existem problemas ao nosso redor? Sim, mas também existem soluções, conquistas diárias, um cheirinho de café, uma música boa, uma conversa bacana. Vários estudos mostram que pessoas que cultivam o hábito de relembrar e trabalhar experiências positivas apresentam mudanças em regiões do cérebro relacionadas ao processamento emocional e ao controle cognitivo. Isso não significa que viveremos em um estado de felicidade permanente, mas que os registros do cérebro estarão mais refinados. É como se estivéssemos ajustando o foco e as cores de uma câmera, em vez de ficar apenas com imagens escurecidas e borradas. Assim, conseguimos dar mais brilho à vida.
Para finalizar, precisamos entender que talvez o nosso maior erro em relação à felicidade seja acreditar que ela só existe nas grandes conquistas futuras. Acostumamo-nos a pensar na felicidade como um destino a ser alcançado. A neurociência, no entanto, sugere que ela pode ser a forma como percebemos o caminho que percorremos. Podemos ter um grande objetivo lá na frente, mas, ao observar o nosso trajeto, perceberemos que as grandes realizações dão a direção, enquanto os pequenos momentos diários nos dão a força e o ânimo para continuar batalhando. Será que eu não seria mais eficiente em uma reunião ou palestra se me apoiasse na força dessas coisas boas diárias, em vez de me arrastar apenas para cumprir uma etapa de um grande objetivo? Vale a pena nos questionarmos: "O meu cérebro consegue perceber a felicidade escondida nas pequenas coisas ao meu redor hoje?". Um bom exercício é, ao final do dia, relaxar e repensar. Mesmo que o dia tenha sido um caos, será que não houve algum momento bacana? Uma brisa no rosto durante a volta para casa que trouxe conforto? Precisamos dar um novo olhar para a vida e perceber que, embora as grandes conquistas tragam uma euforia mais evidente, o verdadeiro bem-estar cotidiano pode estar justamente nessas pequenas coisas, apenas esperando em um cantinho para ser encontrado.
Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)