VISITE MINHAS REDES SOCIAIS           Ícone Ícone Ícone
Menu
 
 

 

 

BLOG DE ADRIANO FREITAS

 
Copiar Compartilhar
 
« Voltar para as publicações

EFEITO PLACEBO

2026-09-08
EFEITO PLACEBO

Neste artigo, vou falar um pouquinho sobre o efeito placebo, definir o que ele é, entender como funciona e quais são os benefícios que pode trazer para a saúde de uma pessoa. Bem, muita gente já ouviu falar do efeito placebo e do uso de placebos. Mas o que seria o placebo, do ponto de vista da pesquisa? Seriam medicamentos feitos com alguma substância neutra, que pode não ter efeito algum (como farinha ou açúcar), ou também pode ser um medicamento ativo, só que não para a condição que se propõe a tratar.

Por exemplo: você pode fazer uma pesquisa para problemas respiratórios e utilizar um comprimido de vitamina C, que às vezes não tem relação nenhuma com o vírus causador do problema respiratório. Ele funciona como um placebo, apesar de ser uma substância ativa. Portanto, existem esses dois tipos possíveis de placebos: aqueles que realmente não têm efeito algum e aqueles que têm algum efeito, mas não para aquilo a que se propõem.

Em um estudo científico, medicamentos que estão sendo testados são dados a um grupo, e placebos são dados a outro, sendo que os participantes não sabem o que estão tomando. A partir daí, são feitas as análises, as comparações e a coleta dos resultados.

Só que o efeito placebo vai um pouco além de simplesmente administrar um placebo a alguém para testes. Ele passou a ser reconhecido por meio de pesquisas que identificaram que, para muitas pessoas, o placebo funciona. Mesmo que ele não tenha utilidade nenhuma para aquela patologia específica que a pessoa possui, o fato de estar tomando um placebo já faz com que ela apresente algum tipo de melhora. Isso foi identificado por alguns pesquisadores e ganhou esse nome justamente por originar-se do uso do placebo.

Ainda há muitas pesquisas em andamento sobre o efeito placebo, e não há nada 100% concluído. No entanto, os estudos já encerrados e os atuais indicam uma forte associação do efeito placebo com a ativação do sistema de recompensa. Eu já falei sobre o sistema de recompensa em outros artigos e em meu podcast: é um sistema existente em nosso cérebro que processa a dopamina, um neurotransmissor que nos dá satisfação, sensação de realização, vontade de fazer as coisas e a sinalização de que fizemos algo corretamente. O cérebro realmente gosta disso; ele quer a dopamina.

Percebeu-se que, quando se gera um efeito placebo, esse sistema de recompensa que trabalha com a dopamina é fortemente ativado. (Aconselho até escutar meu podcast que fala sobre isso, que é o sobre motivação). Nessas pesquisas, identificou-se que essa área é fortemente ativada quando ocorre o efeito placebo. As conclusões e deduções a partir disso são muitas. Dentre elas, o fato de que a pessoa, quando está com algum problema que precisa ser solucionado e que a incomoda bastante, quer se ver livre daquilo de qualquer maneira.

Isso gera ansiedade e expectativas. Quando há uma promessa de solução com base em algum chá, algum comportamento ou até mesmo em um remédio placebo, muitas vezes isso ativa o sistema de recompensa, motivando a pessoa a utilizar aquilo. É mais ou menos o que também falo sobre o viés de confirmação: a pessoa tende a assumir e a acreditar nas notícias que vão ao encontro do que ela pensa e acredita. Portanto, se ela de fato acredita que o remédio vai curá-la ou apresentar resultados positivos, o que ocorre — através do viés de confirmação — é que ela acredita firmemente que aquilo vai funcionar, mantém a esperança, diminui o nível de ansiedade e aposta suas fichas nesse medicamento.

Ao tomá-lo, é como se ela pensasse: "Consegui o remédio! Era esse remédio experimental que eu precisava". Ao receber o medicamento, ela tem a satisfação de ter conseguido o que tanto queria: algo que a levará à cura. Isso ativa, de fato, o sistema de recompensa. Além de acreditar muito naquilo, ela recebe uma carga de dopamina por ter conseguido obter o que desejava.

Muitas pessoas perguntam: "Ok, mas o que o sistema de recompensa teria a ver, por exemplo, com o sistema imunológico para combater um vírus ou uma infecção?". E aí os pesquisadores atuam em outras frentes e já estão detectando o seguinte: naturalmente, o sistema de recompensa tem sim uma interferência no sistema imunológico das pessoas.

Partindo dos instintos básicos e das necessidades de sobrevivência do ser humano, podemos concluir que as atividades primárias — como alimentação, sexo, entre outras — são também aquelas que abrem maiores portas para infecções. Através da alimentação, por exemplo, você tem uma chance alta de contrair uma infecção; da mesma forma, através do sexo e de outras atividades básicas. Por uma questão evolutiva da espécie, acredita-se que o sistema de recompensa está muito envolvido com essas atividades, porque é ele que proporciona a satisfação ao matar a fome, e a atividade sexual também ativa fortemente o sistema de recompensa, gerando satisfação.

Detectou-se que esse gatilho se formou porque, justamente por representarem uma porta de entrada maior para infecções, a evolução humana fez com que essas atividades básicas, ao ativarem o sistema de recompensa, acionassem um mecanismo encarregado de dar um reforço no sistema imunológico para que essa porta de entrada para infecções fosse mais controlada. Daí vem a explicação de por que, ao ativar o sistema de recompensa, o sistema imunológico melhora.

Fazendo essa ligação toda: o fato de se obter um placebo e de se acreditar muito nele dispara o sistema de recompensa que, por sua vez, ativa e fortalece o sistema imunológico. Parece algo curioso, mas é verdade. Não é mito dizer que os placebos funcionam e realmente ajudam os seres humanos.

Agora, precisamos fazer uma diferenciação. Uma coisa é ter um placebo que funciona para doenças e infecções que podem ser combatidas pelo próprio sistema imunológico natural; outra são aquelas que não podem. Nesses casos, não há placebo que dê jeito. Vou dar um exemplo bem grave para ilustrar essa noção: o câncer. Um câncer em estágio avançado não tem placebo que dê jeito. Por quê? Porque não adianta fortalecer o sistema imunológico humano se ele sozinho não conseguir combater aquele câncer. Por isso, um placebo não funcionaria — ou traria efeitos muito escassos — em pessoas com câncer.

Porém, em pessoas com pneumonia, gripe ou problemas gastrointestinais, há essa possibilidade. Por quê? Porque o nosso sistema teria força para combater ou amenizar os efeitos. Se não combater totalmente, pelo menos provocará uma melhora e, com poucos auxílios medicamentosos, resolverá o problema. É preciso deixar isso claro: não é porque o placebo funciona que você vai usá-lo para tratar o câncer ou doenças autoimunes, pois ele não resolverá a situação. Ele dá uma força e uma ajuda, mas apenas naquilo que o seu organismo naturalmente já seria capaz de combater.

Sendo mais amplo nessa questão, o efeito placebo pode ser provocado por um medicamento, mas também por outras coisas. Muitas pessoas adotam certas crenças ou atividades de forma similar a um placebo, como se fossem uma medicação ou a cura que procuram. Algumas pessoas depositam isso na religião, atribuindo curas e melhoras a uma crença na qual confiam muito e que acreditam ser capaz de curá-las. Lógico que não estou entrando aqui na questão do charlatanismo ou de curas absurdas; não é isso. Mas o fato de a pessoa ter muita fé em algo, dedicar-se a essa fé, entregar-se a ela, acreditar que isso está lhe fazendo bem e ter a satisfação de frequentar essa comunidade religiosa e usufruir de seus benefícios, dispara os mesmos mecanismos: libera dopamina e aciona o sistema de recompensa, o que, por sua vez, reforça o sistema imunológico.

Repito: não é possível obter a cura de um câncer pela fé, por exemplo, porque é algo que o sistema imunológico não é capaz de combater sozinho, dependendo do estágio. Mas uma pessoa com sintomas brandos e doenças mais tratáveis pode, sim, obter melhora tanto com medicamentos placebo quanto por meio da religião, do yoga, da medicação, de exercícios e por aí vai.

Portanto, a importância e a finalidade do placebo não estão propriamente na sua forma. Não importa se é um comprimido, em gotas, uma injeção, uma religião ou o yoga. O que importa é que seja algo capaz de despertar satisfação, prazer, o desejo de cura e a crença nessa cura. É isso que dispara essa cadeia do sistema de recompensa, que chega até o sistema imunológico.

Da mesma forma, podemos dizer que o oposto também é possível. Embora ainda não haja pesquisas 100% concluídas e determinantes sobre isso, tudo se encaminha para essa conclusão. Assim como o efeito placebo funciona positivamente, ele pode funcionar negativamente. Refiro-me, por exemplo, a uma pessoa depressiva ou com um nível de ansiedade alto, que apresenta baixas nos níveis de serotonina e dopamina — características do estado depressivo. Quando você tem esse tipo de comportamento, por estar tudo interligado, a baixa de dopamina provoca uma ativação quase negativa do sistema de recompensa, gerando implicações diretas no sistema imunológico.

Portanto, pessoas muito ansiosas e que passam por fases depressivas agudas podem, sim, apresentar deficiências imunológicas em função disso. Não que elas necessariamente ficarão doentes, mas estarão mais sujeitas a infecções e terão uma recuperação mais difícil do que alguém otimista que acredita em algum tipo de tratamento e na melhora.

 

Adriano Freitas
Especialista em Neurociências

(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)

 

 


Voltar ao Início do Blog
 

Valorizamos sua privacidade

Meu site usa cookies para melhorar a navegação e personalizar a sua experiência. Ao utilizar o site e os serviços, você concorda com o uso de cookies conforme estabelecido na política de privacidade. Uso cookies para análises de interesses e com base neles desenvolver melhor navegabilidade do site e novos recursos para todos os usuários.

Politica de Privacidade