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BLOG DE ADRIANO FREITAS

 
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HÁBITOS, COMPULSÕES E VÍCIOS

2026-09-04
HÁBITOS, COMPULSÕES E VÍCIOS

Vamos começar entendendo o que são os hábitos e as manias. São aquelas atividades que tendemos a fazer de forma repetida, como um costume diário, horário ou semanal, mas que não têm um impacto significativo a ponto de prejudicar nossa vida. Não ficamos doentes por causa deles, nem ansiosos, e são situações que podemos evitar sem maiores problemas.

Portanto, quando temos um comportamento repetitivo que não nos causa dano e que conseguimos realizar ou deixar de realizar voluntariamente, sem sofrimento, estamos falando de hábitos e manias. Vou dar um exemplo: temos o hábito de escovar os dentes todos os dias após as refeições. Se estou em uma situação atípica no meio da estrada e tive que fazer um lanche, sem acesso a escova e creme dental, eventualmente pulo aquela escovação e faço a próxima. Isso não vai me deixar ansioso nem doente.

Isso é um hábito diário. Podemos ter os mais variados hábitos, como ir para o trabalho sempre pelo mesmo caminho. São comportamentos que adotamos, mas que, como falei, não geram um dano maior. Eles não afetam nossa aprendizagem nem o nosso trabalho de forma significativa.

No entanto, segundo as neurociências, esses comportamentos podem nos prejudicar de alguma forma? Sim. Justamente por não serem tão visíveis, as pessoas têm a sensação de que nada acontece. Como mencionei na definição, não causam um problema no sentido de uma doença, mas impedem o nosso desenvolvimento. Este é o problema do hábito e da mania.

Nosso cérebro é sempre muito estimulado por novas ações, atitudes e maneiras de fazer a mesma coisa. Quando criamos hábitos e manias, o cérebro tende a executar essas tarefas mecanicamente, de forma automática e sem percebermos. Se temos a mania de pentear o cabelo de uma certa forma ou de escovar os dentes com uma determinada mão, já fazemos isso automaticamente, sem pensar muito. Isso gera uma zona de conforto na qual o cérebro se acomoda, deixando de criar novas conexões e sinapses, e estagnando o desenvolvimento naquela habilidade.

Esse é um mecanismo do cérebro para economizar energia e esforço. Quando você cria hábitos, o cérebro se acomoda para poupar a energia que gastaria para desenvolver a atividade de outra forma.

Portanto, para cultivar novas sinapses, criar novas habilidades e ser cada vez mais hábil e ativo com melhor eficiência, o ideal é tentar não criar tantos hábitos. Sempre que perceber que está agindo por hábito, tente mudar a forma de fazer aquilo. O seu cérebro vai empurrá-lo para a rotina, mesmo que ela não gere danos, mas você deve tentar sair dela.

Entendam: o hábito não é algo ruim em si, mas ele impede o aprimoramento de certas habilidades. Então, qual seria o ideal? Percebeu que adquiriu o hábito de sempre passar pela mesma rua para ir ao trabalho? Existem outros caminhos? Comece a adotar rotinas diferentes. Você verá coisas novas, atravessará ruas e cruzamentos inéditos, estimulando o cérebro de maneiras diferentes daquela repetição diária que já não trazia novos estímulos. Esta é a ideia.

A dica que fica é: os hábitos não são danosos por si só, mas o seu prejuízo está em estagnar o seu desenvolvimento cognitivo e de estímulos. Sempre que possível, altere seus hábitos para que não se tornem arraigados, conseguindo realizar as mesmas tarefas de maneiras diferentes. Um dia escove os dentes com uma mão; no outro, tente com a mão menos hábil. Você perceberá que isso proporciona uma melhor performance e um desenvolvimento superior de suas habilidades.

Agora, vamos ao segundo elemento. Associei os hábitos à compulsão e ao vício porque, em alguns momentos, as pessoas confundem os três e o diagnóstico pode ser difícil de diferenciar. No entanto, é importante conhecê-los para tentar mudar e se desenvolver da melhor forma possível.

A compulsão, diferentemente do hábito, geralmente está ligada a uma sensação de insegurança, medo ou ansiedade muito grande, gerando movimentos ou ações repetitivas atreladas a esses sentimentos.

Existem pessoas que lavam as mãos repetidamente por medo de contaminação. Outras, ao sair de casa, trancam a porta, andam um pouco, voltam para conferir, repetindo isso dezenas de vezes por insegurança. Isso acontece tanto na hora de sair quanto na hora de dormir.

Diferente do hábito, a compulsão causa ansiedade e transtornos. Esse estado de preocupação, nervosismo e medo é constante. O hábito, por sua vez, gera acomodação. O transtorno obsessivo-compulsivo recebe esse nome justamente porque causa um transtorno na vida da pessoa.

Isso perturba o cotidiano a ponto de a pessoa perder muito tempo com essas atividades, que podem inclusive ser danosas. Pessoas que lavam as mãos repetidamente chegam a feri-las de tanto lavar por medo de contaminação. Da mesma forma, quem verifica a porta dez ou quinze vezes pode acabar não conseguindo se divertir no cinema ou em uma festa, pois continua preocupada com a possibilidade de ter deixado a porta destrancada.

A compulsão mexe com o estado emocional da pessoa; ela não consegue relaxar enquanto não realizar e se certificar de uma determinada atividade. E isso fica se repetindo na cabeça dela. Ela está na festa, mas precisa lavar a mão por medo de contaminação. Se alguém a cumpre, ela sente que a mão foi infectada novamente e precisa recomeçar o ciclo. A pessoa realmente não tem paz.

Ressalto o que sempre digo nas minhas aulas e em meu podcast: cada pessoa é única. Não somos cópias umas das outras. A intensidade da compulsão varia de indivíduo para indivíduo. Algumas pessoas conseguem relaxar após repetir o comportamento um certo número de vezes e sentem a certeza de que a porta foi fechada, conseguindo espairecer ao se afastarem dali. Ou seja, existem casos de intensidades variadas, e eu estou citando os casos extremos.

Para terminar a questão da compulsão, os prejuízos no trabalho, nos estudos e na vida são exatamente a falta de tranquilidade e a dispersão. Como a pessoa terá foco para estudar ou trabalhar se a cabeça está na porta que ela não sabe se fechou, ou preocupada com as mãos e roupas que precisa lavar? Ela não consegue se concentrar nem se empenhar adequadamente, ficando sempre dispersa, o que afeta toda a sua vida.

Para encerrar, o último fator que abordarei é o vício. O vício é a necessidade que a pessoa tem de fazer alguma coisa ou de utilizar alguma substância, medicamento ou droga. A linha entre a compulsão e o vício é tênue e, às vezes, eles se confundem. 

No entanto, enquanto na obsessão a pessoa lida com uma preocupação e ansiedade constantes, no vício não há necessariamente essa preocupação prévia de "ter que tomar um remédio para não ser assaltado ou contaminado". A pessoa apenas sente uma necessidade intensa daquilo, sem saber muito bem o porquê: ela simplesmente quer. Essa é uma das principais características do vício.

Outra diferença básica é que o vício gera danos diretos. Podemos dividi-lo em vício químico — quando a pessoa é dependente química de algo — e dependência psicológica. É importante fazer essa distinção.

Os dependentes químicos sofrem danos reais. Existem mecanismos no cérebro, como o sistema de recompensa e outras estruturas, que passam a depender da substância para funcionar bem. Se a pessoa fica sem a substância ou o medicamento, surge a chamada síndrome de abstinência, caracterizada por tremores, convulsões, extrema violência e outras reações que variam conforme o tipo de vício e a estrutura de cada indivíduo.

O vício gera essa fissura e necessidade fisiológica. Não é uma preocupação baseada em medos externos, mas sim uma necessidade orgânica para que a pessoa se sinta bem. É isso que o diferencia da compulsão.

O vício químico é essa necessidade. A pessoa passa mal, sente náuseas, dores de cabeça, tem convulsões ou alterações na pressão arterial pela falta da substância no organismo. Isso pode ocorrer com substâncias ilícitas, mas também com analgésicos, por exemplo.

Vale a pena esclarecer algo que poucos conhecem: os vícios químicos não se caracterizam apenas pela síndrome de abstinência, que é a necessidade intensa da substância para cessar os sintomas físicos. Existem drogas e medicamentos que causam dependência química sem que haja abstinência, mas sim a necessidade de usar o produto para se sentir melhor.

Darei um exemplo. Muita gente não imagina que analgésicos comuns podem causar dependência química. Existem analgésicos opioides (como propofol, demerol, morfina e tramadol), mas até analgésicos mais leves, os não esteroides, incluindo o paracetamol, podem gerar dependência.

A diferença está no tipo de reação. Enquanto alguns medicamentos geram abstinência, outros causam o chamado efeito rebote. Quanto mais você toma paracetamol para a dor de cabeça, por exemplo, mais o efeito dele diminui gradualmente, ao mesmo tempo em que a sensibilização à dor aumenta nas terminações nervosas. Assim, você passa a sentir mais dor e, consequentemente, tende a tomar mais o medicamento, gerando um ciclo vicioso de dependência não relacionado à abstinência, mas sim à sensibilização e ao efeito rebote.

A grande dica é: não se automedique e não exagere nas dosagens. Se a orientação é tomar um analgésico apenas durante a crise de dor insuportável, faça isso e, depois, abra mão dele, a menos que haja prescrição médica expressa para uso contínuo.

O acompanhamento médico é fundamental em todas as situações. Informe ao seu médico tudo o que acontece, inclusive sobre prescrições feitas por outros profissionais, para que todos estejam alinhados e possam orientá-lo adequadamente.

Não pense que, por ser um paracetamol ou uma aspirina, você não terá problemas. Até a água, em excesso, causa intoxicação.

Portanto, o resumo da história é: não se automedique e evite o uso constante de medicamentos sem real necessidade. Medicamentos de uso contínuo devem ser tomados apenas mediante prescrição específica, como no caso de remédios para pressão ou cardiopatias. Em qualquer situação, o acompanhamento médico é indispensável. Lembre-se de que o medicamento não é natural ao seu corpo; ele entra para suprir uma situação momentânea, como uma dor, mas sem tratar a causa real do problema.

Sobre os benzodiazepínicos — os famosos remédios tarja preta para dormir —, eles podem causar estragos na vida da pessoa se tomados de forma inadequada ou contínua sem necessidade. Por isso, a orientação médica é sempre o caminho mais seguro.

Para fechar, falei da dependência química, mas também existe a dependência psicológica. Nesses casos, substâncias, medicamentos ou hábitos criam uma dependência na pessoa, mas sem uma razão química ou hormonal subjacente.

O cérebro da pessoa passa a acreditar que só funciona bem com aquilo, mesmo não sendo verdade. Por exemplo, alguém toma um neuroestimulante para estudar melhor e, em algum momento, para de usá-lo. Embora não haja uma reação química de abstinência física, o cérebro se habituou tanto à ideia que a pessoa passa a acreditar, muitas vezes de forma inconsciente, que não é mais capaz de raciocinar ou trabalhar sem aquela substância.

O resultado é que a pessoa realmente fica dispersa e incapaz de realizar as atividades, não por uma limitação física, mas porque o próprio cérebro se convenceu de que precisa daquilo. Isso também é um vício, mas o tratamento não é clínico ou químico, e sim psicológico ou psiquiátrico. Se você usa um neuroestimulante e a falta dele gera desatenção, preocupações ou medos psicológicos e não físicos, o caminho é buscar apoio psicológico ou psiquiátrico.

O mesmo pode acontecer com medicamentos para dor: a pessoa para de tomar e sente a dor voltar, mesmo sem nenhuma causa física nos exames. Muitas vezes, a dependência é psicológica e gerada pelo próprio cérebro.

 

Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)

 

 


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