Neste artigo vou falar sobre persistência e resiliência. Parece tudo igual, mas no cérebro não é. Vamos entender o que acontece na sua cabeça quando você continua insistindo em algo e o que acontece quando a vida o derruba e você se levanta para recomeçar. Primeiro, vamos entender o que é persistência. Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, ela não é teimosia, nem significa forçar a barra até quebrar. Persistência é o cérebro criando condições para você continuar e manter um projeto ou atividade de forma regular, de maneira que você consiga realmente fazer o seu melhor a cada instante.
Isso ocorre quando o seu córtex pré-frontal, que é a parte mais racional, de raciocínio fino e responsável por criar estratégias, consegue manter o foco na sua meta e controlar os impulsos que poderiam inviabilizar o cumprimento desse objetivo. Quando você tem um projeto contínuo, é muito comum surgirem diversos fatos novos que podem gerar o impulso de parar ou de desanimar daquela atividade. O córtex pré-frontal precisa manter a atenção direcionada para a tarefa, inibindo esses impulsos de interrupção para que você consiga continuar normalmente. Considere a persistência como uma espécie de GPS do cérebro: mesmo que você não esteja com muita vontade ou esteja desanimado, ele vai recalculando a rota e empurrando você para a direção correta. Se você desviar um pouco da rota, ele recalcula o que é preciso fazer para continuar.
Isso é fundamental, principalmente se considerarmos que o cérebro é altamente propenso a acomodações e condicionamentos, além de gostar muito de novidades. Se você tem uma atividade rotineira, como um projeto que precisa ser levado por meses ou anos, o cérebro entra em um mecanismo de condicionamento, executando a tarefa de forma repetitiva e automática. No meio do caminho, se aparece um projeto ou um fato novo, ele tende a desviar a atenção com maior força para essa novidade, desestimulando-o do projeto regular que exige persistência. O trabalho do córtex pré-frontal é justamente inibir esses novos estímulos e manter o seu foco naquilo que precisa ser feito com regularidade.
Em relação à neurobiologia da persistência, existem alguns circuitos cerebrais bastante ativados. Um deles é o córtex pré-frontal dorsolateral, responsável pelo foco, pela organização e por manter viva a atenção na sua meta futura. Outro é o córtex cingulado anterior, que avalia o esforço necessário para obter uma recompensa por aquela atividade. Como o cérebro consome muita energia, a economia energética é vital para ele. Portanto, além de focar na meta e na recompensa, o córtex cingulado anterior avalia os esforços envolvidos para adotar a melhor estratégia, decidindo se vale a pena mantê-lo focado e se a atividade demandará uma energia razoável e não exagerada. Aliado a isso, temos o sistema de recompensa mediado pela dopamina, que gera a sensação de progresso e de avanço.
As pequenas vitórias liberam dopamina e sinalizam para o cérebro que você está no caminho certo e deve persistir. É por isso que manter checklists, aquelas listas em que você vai marcando os itens concluídos, funciona tão bem. Cada etapa finalizada é compreendida pelo cérebro como uma conquista, liberando dopamina, ainda que em pequenas quantidades. Como o cérebro busca ativamente essa substância, ele o ajuda a manter o foco para concluir o máximo possível de itens. Portanto, se você tem uma tarefa muito grande, é melhor dividi-la em microtarefas. Ir marcando essas etapas como realizadas vai motivá-lo muito mais do que focar em um projeto enorme que nunca acaba. Um "tarefão" contínuo gera desânimo, pois o cérebro enxerga nele um grande dispêndio de energia. Visualizar pequenas conquistas com pequenos gastos energéticos é muito mais estimulante e ajuda a resolver o passo a passo da atividade.
No entanto, a persistência é apenas metade da história. É fácil insistir e continuar quando tudo anda bem e não há problemas. A grande dificuldade surge quando as coisas começam a dar errado. Como manter o foco e continuar motivado quando o cérebro tende a empurrá-lo para a desistência diante das dificuldades? É aí que entra a resiliência, uma outra habilidade que o cérebro precisa desenvolver para, em complemento à persistência, levá-lo até o fim dos seus projetos. Muitas pessoas acham que ser resiliente é aguentar tudo calado ou ser forte o tempo todo. Para a neurociência, a resiliência é, na verdade, a capacidade que o cérebro tem de voltar ao equilíbrio depois de um estresse, de uma frustração ou de um fracasso.
Quando você passa por um fracasso ou sofre uma reação de estresse, o cérebro se desequilibra, gerando uma sobrecarga de hormônios e neurotransmissores que o deixam frustrado, desanimado e fora do eixo. A resiliência é a capacidade cerebral de retornar à linha de base, ao ponto de equilíbrio, permitindo que você trace novas estratégias e prossiga. Essa diferença é muito clara: a persistência é a capacidade de manter o foco e a motivação; a resiliência é a capacidade de sofrer um tombo, recuperar-se e contornar os problemas sem permitir que eles o impeçam de cumprir seus objetivos.
No caso da resiliência, os mecanismos-chave começam pela amígdala, que funciona como um detector de ameaças à sua integridade ou às suas metas. Há também o eixo HPA (hipotálamo-hipófise-adrenal), que controla o cortisol, o hormônio liberado nas reações de estresse. Se esse eixo não estiver bem afinado para reequilibrar o cortisol, você continuará com reações corporais que o deixarão fora do eixo. Temos ainda o córtex pré-frontal ventromedial, responsável por regular as emoções e reinterpretar eventos. Diante de uma frustração profunda, emoções como raiva e angústia costumam fugir do controle. O córtex ventromedial atua para racionalizar o problema: ele faz você perceber que remoer a situação não traz soluções e ajuda a reinterpretar o ocorrido para minimizar os danos e buscar uma saída. Por fim, o hipocampo contextualiza o estresse buscando na memória situações similares para encontrar o caminho certo de volta à estabilidade.
Funciona da seguinte forma na prática: diante de um grande estresse, o corpo libera cortisol em alta quantidade. Em uma pessoa resiliente, cujas áreas cerebrais são treinadas, esse pico dura pouco. O cortisol é rapidamente controlado, retornando à linha basal, e a pessoa se reequilibra para focar na solução. Em alguém não resiliente, a amígdala se torna reativa e não permite que o cortisol baixe. A pessoa passa a remoer o problema eternamente, retroalimentando o estresse e perdendo totalmente a eficiência na tarefa. Sabe quando algo dá errado e você carrega o mau humor e a preocupação pelo dia todo ou pela semana inteira? Isso é baixa resiliência, é o cortisol demorando a baixar. Já a pessoa resiliente pode se irritar, mas pouco tempo depois está em paz resolvendo a situação.
Podemos comparar a persistência ao motor de um carro, que o impulsiona para a frente, e a resiliência ao amortecedor, que impede o veículo de quebrar ao passar por um buraco. Ambas andam juntas. Você precisa da persistência para continuar caminhando em direção à meta e da resiliência para compensar os danos causados pelos problemas do percurso, evitando desestruturações. Do ponto de vista neural, a persistência é um esforço sustentado (dopamina e córtex pré-frontal), enquanto a resiliência é a recuperação emocional (regulação da amígdala e do cortisol). São habilidades diferentes, mas uma fortalece a outra: quem persiste treina foco e controle emocional, e quem é resiliente se permite tentar novamente, aumentando a persistência.
Felizmente, essas habilidades são competências neuroplásticas, ou seja, podem ser treinadas ao longo da vida. Para treinar a persistência na prática, a primeira regra é definir micrometas. Como já mencionado, um projeto imenso soa muito penoso para o cérebro, soando como um desgaste energético insustentável. Quebre esse "tarefão" em pequenas tarefas diárias ou até divididas por turnos do dia. Ao usar uma lista (no papel ou mentalmente) e marcar cada item cumprido, você gera constantes descargas de dopamina, equilibrando o esforço e mantendo a motivação em alta.
Além disso, é fundamental celebrar os passos. Não significa fazer uma festa, mas pausar para notar o que deu certo. Perceber que uma etapa foi bem-sucedida renova a percepção cerebral de que o esforço valeu a pena. Outro passo essencial é eliminar as distrações, o que inclui desmistificar a multitarefa. Não existe a capacidade de processar simultaneamente diferentes informações com total eficiência; o cérebro apenas se divide e alterna entre elas. Tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo derruba a eficiência, a velocidade e a qualidade do resultado. O ideal é focar em uma atividade por vez.
O automonitoramento também é importante: ao perceber que a atenção se desviou para um ruído ou distração irrelevante, puxe-a conscientemente de volta para o eixo. Junto a isso, mantenha uma organização do ambiente voltada para a funcionalidade. Ter os objetos de que você precisa dispostos de forma prática e ao alcance dos olhos durante a execução poupa o cérebro do desgaste de procurar materiais, economizando energia cognitiva.
Em relação ao treinamento da resiliência, o sono é o primeiro fator de impacto. Dormir mal hiperativa a amígdala e eleva o cortisol crônico, dificultando a recuperação do estresse. Contudo, dormir bem não significa obrigatoriamente dormir oito horas ou acordar cedo; trata-se de respeitar o próprio relógio biológico. Existem matutinos e vespertinos extremos, assim como pessoas que funcionam perfeitamente dormindo menos. Forçar um padrão inadequado ao seu organismo apenas agravará o estresse. O exercício físico também é crucial, pois melhora a comunicação entre a amígdala e o córtex pré-frontal, ajudando na contenção do cortisol. O suporte social ajuda na regulação emocional de muitas pessoas, embora outras se regulem melhor na solitude. Por fim, a reinterpretação cognitiva permite analisar a adversidade não como um fracasso intransponível, mas como um desafio a ser superado e do qual se pode extrair um aprendizado.
A título de curiosidade, pessoas com superdotação (que se diferenciam daquelas com altas habilidades) tendem a ser neurobiologicamente muito resilientes. Elas sofrem o impacto, mas controlam o cortisol com extrema rapidez. Devido ao chamado pensamento não linear ou arbóreo, ao se depararem com um grande obstáculo, seus cérebros encontram rapidamente diversas soluções alternativas em vez de remoer o problema. Porém, podem precisar trabalhar mais a persistência, já que tendem a abandonar atividades precocemente. É comum também que superdotados sejam vespertinos extremos e tenham uma necessidade natural de dormir menos horas.
Em suma, a persistência e a resiliência não são talentos inatos, mas características treináveis. O cérebro pode se moldar para ajudá-lo a continuar firme e a se reerguer rapidamente. Quando você entende a biologia por trás disso, percebe que basta se condicionar. Contudo, saber que o cérebro é treinável não é suficiente; tudo depende da sua vontade. Se você não se mover e não se esforçar para iniciar esse treinamento em busca de maior eficiência, continuará com as mesmas dificuldades. O cérebro é treinável por natureza, mas é o seu querer que inicia a transformação.
Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)