Para começarmos a discutir esse assunto, precisamos entender primeiro que "mau-caráter" não é um termo científico. A ciência não rotula ninguém como tendo bom ou mau caráter; esse é um rótulo dado de forma social e moral. Trazendo para o campo científico, podemos dizer que é um conjunto de comportamentos antissociais, enganosos, manipuladores e cruéis que definem uma pessoa tida como mau-caráter. Quando alguém recebe esse rótulo, é porque apresenta, em geral, uma ou mais dessas características. Muitas pessoas buscam entender por que indivíduos têm caráteres tão diferentes: enquanto um é altruísta e bondoso, o outro é cruel e vingativo. Por que isso ocorre? Será que existe alguma predisposição física? É isso que vamos compreender neste artigo.
Existem vários mecanismos cerebrais envolvidos na formação do caráter. O primeiro é o sistema límbico, responsável por lidar com as emoções humanas. Temos também o córtex pré-frontal, que exerce o controle inibitório — ou seja, é ele quem inibe ou não os nossos instintos de violência e de ação sobre os outros, além de ser responsável pelo nosso julgamento moral. É o córtex pré-frontal que faz o raciocínio fino para definir o que é ou não moral. A ínsula, por sua vez, trabalha a empatia e a aversão ao dano. Muitas vezes, uma pessoa pode apresentar um caráter considerado duvidoso a partir do momento em que reage para evitar um dano a si mesma, revidando agressivamente, o que também pode envolver a atuação da ínsula. Há ainda a amígdala, que atua no reconhecimento das emoções, especialmente do medo e da culpa. Por fim, as redes da chamada "teoria da mente" são as responsáveis por interpretar as intenções alheias. Possuímos redes neuronais dedicadas a mapear e entender o que os outros podem estar pensando e quais são as intenções deles para conosco.
Além das estruturas cerebrais, alguns fatores biológicos influenciam tendências antissociais. Eles não são determinantes, mas exercem certa influência. Um exemplo é a menor reatividade da amígdala. Como ela é um centro emocional que reconhece emoções como medo e culpa, uma amígdala menos sensível resulta em uma menor resposta ao sofrimento alheio. A pessoa se compadece e se emociona menos, sofrendo menor interferência emocional em seu dia a dia. O funcionamento reduzido do córtex orbitofrontal também interfere, pois gera impulsividade e dificuldade em inibir comportamentos inadequados. Outro fator são as disfunções nos circuitos dopaminérgicos, que compõem o sistema de recompensa da dopamina. Uma falha nesse sistema pode provocar uma busca exagerada e incessante por recompensas imediatas, cegando o indivíduo para as consequências de seus atos e levando-o a atitudes incorretas apenas para obter a dopamina que busca. Há, ainda, traços temperamentais herdáveis que podem fazer com que a pessoa tenha um baixo nível de medo. Sem temer a reação alheia, ela acaba agindo sobre os outros e ressaltando comportamentos agressivos.
Quando essas estruturas cerebrais são afetadas — seja por questões genéticas, de nascença ou devido a lesões — e se tornam menos reativas, elas certamente terão influência sobre o comportamento e sobre aquilo que rotulamos como caráter. Porém, deve ficar claro que isso não é determinante. Não significa que a pessoa nasceu assim, vai morrer assim e não tem jeito. Trata-se de uma tendência, e caberá ao indivíduo ceder a ela ou batalhar para revertê-la. Muito disso pode ser inibido ou controlado por meio das experiências, do raciocínio e da capacidade de contenção que o meio social proporciona. Assim, podemos dizer que a criação, a educação e o desenvolvimento do indivíduo são fatores ainda mais determinantes, podendo abafar ou não essas características. O caráter pressupõe uma predisposição, mas também é fortemente moldado pelo ambiente em que a pessoa se desenvolve. Uma pessoa sem predisposição genética, mas que cresceu em um ambiente altamente hostil, pode sim se tornar agressiva e mau-caráter. Em contrapartida, alguém com predisposição, mas que foi criado e educado em um ambiente com os estímulos adequados, pode perfeitamente manter essas tendências sob controle e não apresentar um caráter ruim.
Vários elementos durante a criação e o desenvolvimento podem ter grande influência na formação desse caráter considerado ruim. A negligência na criação e educação da criança, bem como o abuso infantil, geralmente ressaltam instintos mais agressivos. Há também o chamado "apego inseguro", que ocorre quando a pessoa cresce em um ambiente onde não sente a segurança de manter seus laços afetivos, vivendo com o medo constante de perder aquilo de que gosta. Ambientes violentos também exercem forte interferência. Crianças que crescem presenciando violência, seja familiar (entre os pais) ou não, sofrem grande impacto. Mesmo que não haja violência dentro de casa, se a criança vive inserida em uma comunidade extremamente violenta e a família não é sólida o suficiente para impor uma barreira a essa agressividade externa, ela pode sofrer influências e adquirir os hábitos daquele meio externo.
Outro fator crucial é a ausência de modelos pró-sociais durante o crescimento. Muito mais do que falar, ensinar e dar sermões, o que realmente importa são os exemplos. Se o discurso da família não corresponde à prática vivida no dia a dia, e se a criança não encontra bons modelos em casa, na sociedade ou nos meios que frequenta, isso interfere profundamente na formação da sua personalidade e na forma como reagirá a certas situações. Por isso, a família deve estar presente para dar um exemplo adequado e também observar os meios de convívio da criança, acompanhando, por exemplo, sua vivência escolar. Ainda que os professores se esforcem, se a criança convive com colegas de realidades muito distintas e com traços de personalidade inadequados, ela pode assimilar esses comportamentos, já que passa tanto tempo na escola quanto com a família. O acompanhamento em ambos os meios é fundamental.
Fatores como negligência, abuso, violência, insegurança e a falta de bons exemplos sociais interferem diretamente na modelagem da empatia, do autocontrole e da capacidade de confiar nos outros. Isso pode gerar indivíduos constantemente desconfiados ou com dificuldades de regulação emocional, incapazes de se controlar diante de certas circunstâncias. O ambiente externo ajuda, portanto, a moldar essas características. Resumindo, o que a sociedade rotula como "mau-caráter" é, para a ciência, um conjunto de predisposições que a pessoa pode ou não desenvolver ao longo de sua formação.
Entre essas características científicas do mau-caratismo, destacam-se: a impulsividade, que é a dificuldade de conter instintos emocionais (por exemplo, transformar a raiva em um soco em vez de refletir e lidar racionalmente com o sentimento); a falta de empatia, que é a incapacidade de analisar a dor alheia, colocar-se no lugar do outro e compreender o que ele está sentindo; e a manipulação, que envolve fazer o que se quer utilizando os outros. Há também a crueldade instrumental, que ocorre quando o indivíduo usa pessoas e situações como objetos para obter o resultado desejado, sem se importar se a atitude é imoral; a transgressão consciente, que é quebrar intencionalmente regras e normas sociais para atingir um objetivo próprio; o narcisismo extremo, caracterizado por colocar-se no centro do universo, acreditando que as próprias vontades e o bem-estar são superiores aos de todas as outras pessoas; e, por fim, a insensibilidade emocional, que é a indiferença de quem tem dificuldade em se emocionar, não importando se todos ao redor estão comovidos.
É comum confundir mau-caratismo com psicopatia. Esses dois aspectos podem ou não caminhar juntos. De fato, muitas pessoas tidas como mau-caráter são psicopatas. Elas nasceram com as estruturas cerebrais operando com essa característica e não terão reversão ao longo da vida. Podem, com extremo esforço, desenvolver mecanismos de contenção, mas a qualquer momento o comportamento psicopata pode disparar. O psicopata nasce com pouca margem para a interferência positiva do meio: ele nasce, cresce e morre psicopata. Não será um ambiente carinhoso ou amoroso que reverterá essa condição. (Quem quiser mais detalhes sobre comportamento psicopata e sociopata, já fiz episódios de meu podcast sobre isso; basta buscar na rede para obter mais informações). Como o psicopata é cruel, malicioso e articula o mal alheio em benefício próprio, ele é, sim, considerado um mau-caráter. No entanto, nem todo mau-caráter é um psicopata. Em geral, todo psicopata é um mau-caráter, mas a recíproca não é verdadeira. Muitas pessoas rotuladas como mau-caráter apresentam comportamentos cruéis e manipuladores não por uma condição neurobiológica irreversível, mas porque as tendências que possuíam foram reforçadas pelo meio em que se desenvolveram. Isso não significa que estejam fadadas a agir assim pelo resto de suas vidas.
Esse é um assunto profundo e repleto de detalhes. Falei de forma geral sobre as estruturas que podem nos predispor a um caráter mais duvidoso, mas reforço que isso não é determinante. Muito do que somos ou de como nos apresentamos é determinado pela nossa vontade e pelo nosso querer. Eu diria que a maior de todas as capacidades humanas é a vontade. Mesmo que alguém nasça com inclinações antissociais ou tenha sido criado em um ambiente hostil, essa pessoa poderá reverter o quadro, desenvolver contenção e condicionar-se a agir de maneira diferente com os outros. Contudo, para que isso ocorra, deve haver um movimento genuíno de vontade. Ninguém conseguirá trabalhar esse condicionamento sem querer fortemente. Quando o indivíduo é forjado em um ambiente negativo, o comportamento torna-se um condicionamento; ele recebeu estímulos cerebrais a vida inteira para agir daquela forma. No entanto, isso não anula o seu senso crítico ou seu raciocínio. Se a pessoa fizer uma autoanálise e perceber que está sendo cruel, antissocial ou mal-educada, ela tem plena capacidade de perceber a inadequação de seus atos e de fazer movimentos concretos para mudar.
Funciona da mesma forma quando alguém percebe que está acima do peso e decide adotar uma rotina de alimentação saudável e exercícios físicos. Essa pessoa conseguirá fazer isso, mas, para a maioria, é um processo extremamente difícil, que exige a desconstrução e a reconstrução de hábitos. No comportamento a lógica é a mesma. Quando a pessoa passa a vida inteira crescendo em um determinado ambiente, torna-se muito mais natural e instintivo para ela agir de acordo com aqueles estímulos. É possível mudar, sim, mas será necessário condicionar-se, manter disciplina, auto-observação, policiamento interno e criar novos hábitos. Por isso, é fundamental distinguir o mau-caráter psicopata daquele formado por condicionamento. O psicopata dificilmente terá jeito, pois, mesmo ciente de que suas atitudes causam dor, ele escolhe deliberadamente continuar maltratando os outros. A crueldade é um desejo consciente para ele, e esse comportamento é inabalável. Já o mau-caráter que foi condicionado a isso, que cresceu em um ambiente hostil recebendo estímulos nocivos, tem total capacidade de se tornar uma pessoa melhor.
Para que essa transformação ocorra, é necessário parar, refletir, observar os próprios comportamentos e querer, de fato, mudar. Quando falamos em mau-caráter, costumamos imaginar os casos mais radicais: a pessoa extremamente cruel e mal-educada com todo mundo. Mas será que temos parado para observar o nosso dia a dia e analisar se lidamos com os outros como gostaríamos que lidassem conosco? Será que, às vezes, não elevamos a voz ou somos grosseiros com alguém movidos por puro hábito ou condicionamento, e justificamos com um "esse é o meu jeito"? Pode ser o seu jeito, mas será que ele é bom? Isso não significa que você não possa mudá-lo. Nosso cérebro é plástico e condicionável, portanto, a menos que você seja um psicopata, sempre haverá a possibilidade de melhorar enquanto ser humano.
Adriano Freitas
Especialista em Neurociências
(Neuropsicologia Clínica,
Intevenção em Neuropediatria,
Neurociência Clínica,
Neurociência Cognitiva,
Trastornos Neurocognitivos)